Camp X-Ray é mais um filme que trata da polêmica e intricada questão das relações americanas com os árabes. Ele se passa na prisão de Guatánamo, em Cuba, para onde foram mandados alguns suspeitos de terem feito parte, de algum modo, do atendado ao World Trade Center em 11 de Setembro de 2001.

A direção e o roteiro são de Peter Sattler.

Kristen Stewart (Cole) faz o papel de uma jovem que se alista ao Exército Americano e é alocada para Guantánamo; ela chega ao local cheia de expectativas, querendo contribuir com a guerra ao terror que é bandeira da sua nação. O que encontra, entretanto, é uma realidade de tarefas repetitivas e enfadonhas, percebendo, em determinado momento, que a sua principal função é impedir que os detentos se suicidem. Cole sente-se tão presa àquele lugar cheio de regras como qualquer um dos detentos.

Dentro deste ambiente monótono, Cole acaba fazendo amizade com um dos detentos, Ali (Peyman Moaadi), que vive implorando pelo último livro da saga Harry Potter, pois ele leu os outros seis várias vezes e não sabe o final da trama. O detento explica que quando começou a ler os livros tinha a impressão de que o personagem Snape era mau. Mas no desenrolar da estória, mudou de idéia e percebeu que ele era bom. Ao fim do penúltimo livro, entretanto, as ações de Snape o fazem duvidar se, afinal, ele tem uma personalidade boa ou má. E isso o atormenta todos os dias.

O roteirista utilizou esta passagem para fazer uma analogia com o próprio Ali. Cole não sabe o que ele fez para estar naquela prisão, não sabe se ele é culpado ou inocente, bom ou mau. Ampliando o raciocínio: no meio de tantos conflitos, de décadas de guerras entre árabes e americanos, conseguimos saber quem é o bom e quem é o mau?

São questões muito complexas, que o roteiro trata como pano de fundo. No filme, o que importa mesmo é a relação de amizade entre Cole e Ali. No final das contas, o que acaba sendo essencial é a percepção de que os dois são seres humanos que sofrem, sentem medo, anseios e alegrias da mesma maneira, e que existe um tipo de fio invisível que os conecta, assim como conecta toda a humanidade.

Stewart nunca esteve tão bem na tela do cinema. Parece bem à vontade com o seu papel, e consegue fazer uma atuação emocionante, que obterá êxito em arrancar muitas lágrimas de alguns espectadores. Sua interpretação da guarda Cole é bastante realista e impactante. O mesmo pode ser dito de Moaadi, que constrói um retrato tangível do que é estar preso por oito anos em uma pequena cela, a ponto de perder a razão e a sanidade mental, mas mantendo um grau de humanidade que poderia ter se perdido nestas condições.

O filme é excelente, daqueles que nos faz ficar pensando nele por horas depois que saímos do cinema, ruminando sobre as questões que o diretor/roteirista nos apresentou. A sensação que fica é boa, afinal, no meio de tantas guerras, conflitos religiosos, políticos e econômicos, é belo presenciar uma amizade inusitada florescer em um meio tão inóspito.