Aquarius é o segundo longa-metragem do diretor Kleber Mendonça filho, que ganhou reconhecimento pelo seu trabalho no aclamado e premiado O Som ao Redor. Desta vez, além de trazer as questões sociais presentes no seu primeiro trabalho, ele faz uma investigação sobre a memória e sobre o poder das presenças físicas – em lugar das virtuais, seja de lugares ou objetos, que atuam sobre a construção da memória. O filme é dividido em três partes:

Na primeira parte do filme, acompanhamos Clara (Sônia Braga), ainda muito jovem, no aniversário de sua Tia Lúcia, no início dos anos 80, em Recife. Esta primeira parte é fundamental para entender a relação dos personagens que será trabalhada ao longo do filme. Nela, somos apresentados à paixão de Clara pela música – que aparecerá durante todo o filme e servirá como elo fundamental para construção da trilha sonora, às adversidades a que Clara foi submetida – ela teve câncer de mama muito jovem e sobreviveu e às memórias de Tia Lúcia, que surgem através de uma cômoda de madeira presente no apartamento. Ao olhar para cômoda, Tia Lúcia lembra uma cena de amor que viveu ainda jovem, com seu marido e fica muito emocionada. A partir desta cena, a cômoda, antes objeto comum, se transforma num importante personagem para o filme.

Nas demais partes, somos transportados para uma Recife atual, onde a personagem Clara vive com segurança e tranquilidade, no mesmo apartamento, de nome Aquarius, na frente da praia de Boa Viagem, onde se banha todos os dias, sob proteção dos salva-vidas que já conhecem a antiga frequentadora. A tranquilidade de Clara começa a ser ameaçada por uma construtora que consegue comprar todos os apartamentos do Edifício Aquarius, menos o de Clara, e pretende demolir o prédio para construir um outro mais moderno. Clara, apesar do alto valor oferecido, resolve não vender o apartamento, indo contra a vontade da construtora e também de seus filhos, preocupados com a mãe vivendo num “apartamento fantasma”. Os motivos de Clara nem sempre são verbalizados, mas basta que o diretor mostre em cena a cômoda, os discos e livros de Clara, para entendermos a subjetividade da personagem em sua escolha. Aliás, este é um dos grandes acertos do filme: esclarecer ao espectador as motivações das personagens mesmo, que estas não sejam verbalizadas. Outro exemplo disto surge quando vemos Clara conversar com um dos seus três filhos, que é homossexual, e dizer “Você sabe como é ter todo mundo achando que você é louca e não ser louca. A gente já passou por isso”. Ela não fala o que exatamente eles passaram, mas toda a construção da história preenche facilmente esta lacuna.

Além de mostrar a homossexualidade de uma forma natural e até banal, como mais um assunto qualquer dentre muitos, Aquarius se despe de qualquer tipo de preconceito. Quando Clara resolve, numa noite solitária, chamar um garoto de programa indicado por sua amiga para passar a noite com ela, não vemos na construção narrativa nenhum tipo de crítica ou julgamento. Aliás, as amigas inclusive conversam sobre isso, numa mesa de bar. Até a escolha da personagem em não fazer uma prótese de mama é uma afirmação de aceitação, de desconstrução do padrão e, porque não, do reforço à importância da memória.

Outro grande acerto de Aquarius é a escolha do elenco e o trabalho de figurino e maquiagem – estes dois últimos, de forma muito bem pensada, parecem, inclusive, inexistentes. Os três elementos somados mostram pessoas comuns, que encontramos casualmente nas ruas. Parece o real povo brasileiro, sem artifícios, estrangeirismos ou ditaduras de beleza.

No embate de Clara com a construtora, o filme denuncia as relações desonestas que fazem parte da realidade brasileira e que estão presentes nas mais variadas esferas da sociedade, desde a religião até a mídia. No desfecho, onde Clara afirma ser uma sobrevivente, pela luta que vivenciou contra o câncer, ela assume a fala do povo brasileiro, tão presente no filme. O povo brasileiro, como afirmou Drummond em sua poesia, não morre. E agora, José?

Assistir Aquarius é como descascar uma cebola e não é pelo choro, apesar do choro também estar presente, já que o filme emociona quase o tempo inteiro, mas é como descascar uma cebola pela quantidade de camadas presentes na obra. São muitas entrelinhas interessantes, muitos aspectos diferentes para serem analisados que torna a obra imperdível. Certamente, Aquarius é um dos melhores filmes do ano e já faz parte da história do cinema.