Alguns diretores cinematográficos se tornam personalidades icônicas pelos seus filmes autorais. São autorais porque, neles, o diretor consegue imprimir características facilmente reconhecidas pelo público: atores, cores da paleta, estética, elementos repetidos, ritmo de narrativa, etc.

Tim Burton é um desses diretores. É possível começar a ver um filme sem saber nenhuma informação prévia sobre ele e reconhecer que é de Tim. Atores? Johnny Depp e Helena Bonham Carter, principalmente. Cores da Paleta? Contraste entre preto e branco, com predominância de elementos escuros. Estética? Próxima do gótico. Elementos repetidos? Árvores retorcidas, elementos fantasmagóricos e místicos, trilha sonora fantasiosa (geralmente composta por Danny Elfman).

Note que, todas essas características tornam A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça um prato cheio para Tim Burton. Cores escuras, tema gótico, elementos fantasmagóricos…

Fazer A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça para Tim é andar em território conhecido. Ele saber fazer esse tipo de filme e é exatamente por isso que o resultado é tão bom.

Como personagem principal, temos Johnny Depp interpretando o detetive Ichabod Crane, que sai Nova York para investigar alguns assassinatos por decapitação no vilarejo de Sleepy Hollow. Seu personagem revela o espírito do século XIX, quando a ciência ganha privilégio sobre as outras formas de conhecimento. Vemos o contraste entre seus métodos científicos e o misticismo da população local, com seus feitiços e bruxarias. O interessante do filme é exatamente não subjugar esse misticismo, fazendo com que ele tenha muito mais importância na história que a ciência em si.

Já Ichabod subjuga esse tema durante todo o tempo. Uma das cenas que revela isso é quando dizem para ele que a chave para decifrar os assassinatos está em um livro e o entregam uma bíblia preta. A contragosto, ele recebe a bíblia sem analisá-la, percebendo apenas depois que a sua contracapa trazia a árvore genealógica das famílias de Sleepy Hollow.

Ichabod se envolve com Katrina, a rica herdeira de uma família tradicional da região, interpretada por Christina Ricci – a famosa Vandinha Adams. Juntos, procuram desvendar o segredo por trás das mortes, realizadas de modo macabro. Além do desfecho surpreendente, outras surpresas ocorrem ao longo do filme, formando um quebra-cabeças a ser montado e decifrado pelo telespectador.

Os flashbacks presentes no filme contam a história do cavaleiro sem cabeça durante sua vida e ajudam a decifrar o mistério. Nesses momentos, ele é interpretado por Christopher Walken, um presente de Tim para o público, já que sua atuação e seu visual reforçam o terror apresentado no filme.

A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, para além do filme de Tim Burton, é uma lenda antiga e bastante popular nos Estados Unidos. Serve como inspiração até hoje para diversas obras e é bastante associada ao Halloween. Transposto para o filme, a história nos ajuda a ver todos os elementos que o diretor gosta de trabalhar. Abóboras em chamas (como em O Estranho Mundo de Jack), árvores retorcidas (como em Edward, Peixe Grande, Beetlejuice), bruxas boas e más (como em Sombras da Noite). Falando nisso, as cenas da feiticeira isolada na floresta que faz previsões também são muito interessantes.

Enfim, fica minha recomendação de filme para conhecer mais a obra do diretor, envolver-se numa bela história de mistério e, de quebra, tomar uns bons sustos.