O Sal da Terra (2014), documentário que tem como foco o renomado fotógrafo Sebastião Salgado, deve ser entendido como um relato da relação de Salgado com a fotografia e não como uma mera cinebiografia.

O documentário foi dirigido por Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, filho de Sebastião Salgado e concorreu ao Oscar 2015 na categoria Documentário.

O fotógrafo nasceu em Aimorés (MG) em 1944, filho de um fazendeiro, e formou-se economista. Casou-se com Lélia e se envolveu em movimentos de esquerda na época da ditadura militar, sendo obrigado a pedir asilo político na França, onde teve dois filhos.

Na primeira cena do filme, já ouvimos a voz de Wenders narrando como conheceu o trabalho de Salgado ao comprar uma obra do fotógrafo há 20 anos em uma galeria de arte. Ele ficou admirado com os registros em Serra Pelada, que mostrava de forma crua o lavor dos garimpeiros, formando quase que um formigueiro humano de rostos uniformizados pelo cansaço e pelo desejo de conseguir riquezas.

A partir desse momento, fica claro que o que iremos assistir é o trabalho de Salgado, e não veremos um exame da sua personalidade e vida pessoal. Por um breve momento, vemos seu filho Rodrigo, que é portador de Síndrome de Down, questão que não é aprofundada posteriormente. Também sentimos falta de mergulharmos na visão de mundo de Salgado.

Sebastião Salgado ganhou notoriedade por seu trabalho como fotógrafo social. Ele utilizou toda a sua técnica em preto-e-branco para mostrar a desgraça humana que toma conta do nosso mundo: registrou êxodos, migrações, secas, a fome e genocídios. São belas e chocantes imagens, mostradas com sensibilidade no documentário, mas foi propositadamente deixada de fora uma questão importante: Salgado estetizou a miséria ou foi agente transformador ao denunciá-la para o mundo?

Em muitos momentos do documentário o próprio Salgado fala para a câmera, que tem um enquadramento fechado num fundo preto, deixando-o mais próximo do espectador. A sua forma de falar e expressões faciais transmitem uma empatia; sentimos que aquele é um ser humano que presenciou desgraças indescritíveis e que foi tocado por elas.

Na sua velhice, Salgado retornou à fazenda de seu pai, já falecido. Ela estava árida e seca, sem sinal de floresta. Lélia e ele decidiram replantar ali a mata atlântica, através do Instituto Terra e hoje as terras já não mais lhe pertencem, mas formam uma área de reserva totalmente reflorestada.

Salgado mudou o foco de sua fotografia: deixou a denúncia social pela fotografia da natureza. Viajou o mundo em busca de vida que ainda estivesse intocada e preservada. Foi uma tentativa de reconectar o homem à natureza. As razões pelas quais se deu essa mudança, entretanto, não são deixadas bem claras no documentário. “Será que ele se cansou de tantos horrores? Ou quis mostrar que ainda há beleza no ser humano?” São as perguntas que nos fazemos.

De qualquer modo, o que fica é que Sebastião Salgado é um homem admirável, que deixou o conforto de uma vida comum e fez uma difícil jornada pelo mundo, testemunhando o que há de melhor e de pior no ser humano.

Veja o trailer: