“Não julgue um livro pela capa”, eles me disseram. Mas eu julguei. E caramba! não me arrependi. De forma alguma.

Faca de água, o novo lançamento de Paolo Bacigalupi traduzido no Brasil pela Intrínseca, surpreende tanto no editorial, quanto na literatura. A começar pela literatura, o livro conta a história de um futuro-não-muito-distante em que a água se tornou um bem extremamente valioso, enquanto o mundo todo enfrenta uma enorme seca. De cara, vemos que o livro é centrado no problema das mudanças climáticas atuais, sendo, assim, uma crítica aos nossos dias – e aos vindouros. Quanto ao editorial… que coisa linda! Palmas para a equipe do design <3

A narrativa inicial é um pouco lenta e o autor aproveita para apresentar os personagens da trama, através de diversos olhares. É nesses vislumbres entre Arizona, Los Angeles, Phoenix, Califórnia, Nevada, Texas e às margens do rio Colorado que se situa a história. Ali, conhecemos Angel Velasquez, o mercenário carismático; Lucy Monroe, a jornalista incansável (e minha personagem preferida); e Maria Villarosa, a moça pobre que só faz escolhas erradas. Claro que as histórias se completam logo à frente e a partir daí começa o desenrolar bom da história. Para tanto, o autor se utiliza de muita ação, aventura e reviravoltas de tirar o fôlego, enquanto constrói um mundo caótico e verossímil.

“Então, por que correr? Se o mundo inteiro está em chamas, porque não enfrentá-lo com uma cerveja na mão, sem medo?”

O mais profundo – e assustador, diga-se – é perceber que o problema da água não é só ambiental, mas também político e econômico. Isso fica bem claro quando se veem as guerras e inúmeras ações judiciais travadas entre governo, advogados, empresários, mercenários e militares na busca da sobrevivência e do lucro. Para além, a crítica à desumanidade da sociedade é muito forte, explorando o egoísmo dos homens mesmo em tempos de crise.

“As pessoas só vivem realmente quando estão prestes a morrer” disse ele. “Antes disso, tudo é um desperdício. Você não aprecia como as coisas eram boas até que você realmente esteja na merda “