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A gente vai amadurecendo.

Coisas que nos passavam despercebidas começam a saltar aos olhos e revelam outros sentidos.

(Muito!) tempo atrás, assisti “9 e ½ semanas de amor”. Na época, eu era um jovem bobo e facilmente impressionável. “Nossa! Que filme hot!” Kim Basinger belíssima e fazendo par com um jovem Mickey Rourke (antes da cirurgia), e que música: “Slave to love”, do Bryan Ferry!

Daí a gente vai amadurecendo, aprendendo, mudando (de preferência para melhor – please!), e percebi que “9 e ½ semanas de amor” NÃO é uma história de amor – e que diante do livro, o filme apenas patina na superfície.

Lançado originalmente em 1978 e publicado em 2013 pela Universo dos Livros (versão utilizada para esta resenha), o livro causou furor, dado o seu alto teor erótico. A autora Elizabeth McNeill – pseudônimo de Ingeborg Day – narra as memórias de uma tórrida relação que teve com um homem que conheceu em uma feira de rua. É interessante notar que em nenhum momento do livro ficamos sabendo o nome desse homem – sendo tratado apenas como “ele”.

Nossa heroína se joga por completo nessa relação cujas noites eram “…palpáveis e intensas, eram lâminas delineadas tão claramente que chegavam a ser luminosas. Um país diferente com paisagem e moeda simples: calor, medo, frio, prazer, fome, excesso, dor, desejo, tesão insuportável.”

A autora nos faz mergulhar nesse mundo de maneira bem voyeurística. As cenas são diretas, sem rodeios, nunca “pseudo-romantizadas”: é de um erotismo cru. E com o desenrolar da história percebemos a “evolução” desses jogos de desejo. Uma algema aqui, olhos vendados, uma roupa específica acolá. Nos é descrito todo o ritual que esse homem realizava: dava banho na protagonista, a enxugava, a vestia, preparava o jantar, a alimentava, lia para ela… Em contrapartida, no capítulo seguinte, a protagonista nos diz o que ela fazia: “Nada”.

Mais e mais situações vão sendo postas para Elizabeth que, vai se submetendo a elas sem discutir. Em uma das vezes que se recusa, ele simplesmente, acende as luzes, pega uma mala e começa a colocar os pertences dela e diz:
“Quero você comigo, mas não vou forçá-la a ficar. Olha, é assim que é com a gente. Enquanto estiver comigo, você faz o que eu digo. Enquanto estiver comigo – ele repete simplesmente, sem maior gravidade -, você faz o que eu digo.”

A protagonista é uma executiva de uma grande corporação, uma mulher bem resolvida, que possuía o controle de sua vida, mas que de repente se vê totalmente presa a essa relação, chegando ao ponto de esquecer-se de si mesma como pessoa, para entregar-se com um objeto para o prazer:
“Havia apenas o luxo libidinoso de ser uma observadora da própria vida, uma renúncia absoluta da individualidade, um gozo na entrega e na abdicação de mim mesma.”

É uma narrativa acerca dos desejos, dos limites de cada um e até onde estamos dispostos a ir para conseguir prazer. O livro nos mostra várias práticas do universo sadomasoquista, o que – com o consentimento de ambas ou mais partes de uma relação – é “de boas”, mas percebe-se que vai bem além, mostrando vários aspectos de uma relação abusiva que vai “minando” uma das partes.

É um livro bom para pensar sob essas duas vertentes: a do erotismo em uma relação – o quanto conhecemos dos nossos próprios desejos; e sob a ótica do quão danoso é um relacionamento abusivo.

Enfim, recomendo. E recomendo também a música “Slave to love” do Bryan Ferry, pois é aquele flashback cafoninha bem maroto.


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Breno Taveira

Sociólogo acidental, andarilho matutador, alma antiga e ariano de buenas.
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