“Meu nome foi apagado da minha mente. Sou um número, mais uma vez”.

Depois de vários dias lendo o livro “As irmãs de Auschwitz”, agora consigo escrever o nome Auschwitz, porém pronunciar é quase impossível. Não à toa, essa palavra é tão fria, esse lugar impronunciável. Escrever sobre Auschwitz é difícil, tendo em vista que a simples menção a esse lugar já traz dor, pavor. Algumas palavras não precisam ser pronunciadas, mas Auschwitz é para nos lembrar dos erros que a humanidade não precisa mais cometer. É um livro de terror, porque é aterrorizante imaginar o ser humano desempenhando um papel tão brutal.

Para aqueles que nunca ouviram falar de Auschwitz, esclareço que foi um campo de trabalho durante a Segunda Guerra Mundial na Polônia. Era denominado um campo de trabalho, porém era um campo de extermínio criado pelos nazistas para matar judeus. Em nossa história veremos que o trabalho desenvolvido lá, também era uma das formas de matar judeus e de acabar com o pouco de dignidade que ainda lhes restava.

O livro conta a história da sobrevivente judia Rena Kornreich que foi enviada no primeiro transporte de judeus enviados para Auschwitz quando ainda se acreditava que se tratava de um campo de trabalho para judeus. Danka, irmã de Rena, chegou alguns dias depois em Auschwitz. O nome do livro é porque muitas irmãs foram enviadas para o campo de trabalho.

“Lágrimas geralmente têm gosto salgado, mas as minhas eram amargas, congeladas nas laterais do meu rosto, congeladas no tempo”.

Rena ficou um tempo escondida na casa de parentes e amigos, tentando fugir do destino cruel que a esperava, porém temendo colocar em risco a vida de seus anfitriões, ela foi voluntariamente se entregar para ser enviada ao campo de trabalho.

No primeiro transporte, 998 mulheres foram levadas para Auschwitz de forma totalmente brutal. Durante dias, tiveram que viajar em pé, sem possibilidade de ir ao banheiro ou se alimentar.

Quando chegaram a Auschwitz, elas foram tosquiadas como ovelhas, os cabelos foram raspados, assim como todos os pelos do corpo por causa de piolhos. Elas também foram jogadas em banheiras com uma espécie de desinfetante bem forte. Tratadas como animais irracionais para impedir a proliferação de pragas. Cada pessoa também recebia um número tatuado na sua pele.

O número tatuado no braço de Rena era 1716. Ela removeu o número depois de sair de lá, mas esse número foi marcado em sua alma e jamais pôde ser removido.

“Meu número é 1716…marcadas e numeradas como gado, esfregamos os braços como tínhamos esfregado nossa cabeça nua, tentando fazer a dor ir embora”.

A estratégia de sobrevivência de Rena era ser invisível no campo de concentração, pois o corredor da morte era mais rápido para as que se destacavam.

Rena desejou fervorosamente que Danka não fosse enviada para Auschwitz, todavia a presença da irmã foi sua salvação. Todos os dias, ela aguentava o sofrimento excruciante por causa de um único objetivo que era voltar para casa com a irmã sã e a salvo. Proteger Danka tornou-se a coisa mais importante para Rena e foi daí que ela tirou forças para aguentar todo o tormento e a dor dos piores dias de sua vida.

 “Meu único grande feito na vida, meu destino, é sobreviver a isso e retornar triunfante com minha irmã para casa de nossos pais. Meu sonho não pode ser maculado pelos chicotes alemães, pelas correntes ou pelas regras”.

A rotina no campo também era dura. Todos os dias, as mulheres acordavam às 4 da manhã, depois se direcionavam para a fila da latrina, comiam um pedação de pão e seguiam para o campo de trabalho sob as ordens de uma encarregada. A alimentação se resumia em chá – sopa – pão. Cada mísero pedaço de alimento extra era um verdadeiro tesouro.

Havia várias formas de morrer em Auschwitz. Piolhos, sarna, inanição, assassinato a sangue frio no campo de trabalho por qualquer razão. Após um tempo, iniciou-se uma seleção para escolher quem permaneceria trabalhando ou seria enviado para as câmaras de gás ou os fornos. Também era comum suicídio, muitas moças se jogavam nas cercas elétricas. Cada minuto de vida era extremamente incerto.

“A banda marcial está tocando, mas por dentro estou morrendo uma centena de mortes, ouvindo apenas um canto fúnebre; para mim é o fim”.

“Apesar do sol, o céu é negro… não estamos vivendo em Birkenau. Estamos sempre quase mortas.”

Ler sobre o que aconteceu em Auschwitz é algo completamente perturbador. O incômodo é constante, porque não é ficção, foi algo real e injustificável. Em muitos momentos, tentei imaginar que era apenas uma história inventada, que todo aquele horror não aconteceu, porque é demais imaginar que cada linha contada nesse livro foi real.

O livro é História pura e há muitos dados. Os números apresentados são aterrorizantes, quase inacreditáveis. Heather fez um ótimo trabalho de ouvinte para contar a história de Rena e as pesquisas históricas enriqueceram muito o livro.

O mais duro é saber que, embora não haja um Hitler por aí dizimando judeus, existem muitos outros defendendo quem vive e quem morre. A Guerra na Síria, ataques terroristas na Europa ou nos Estados Unidos e a violência nossa de todo dia é a constatação de que o ser humano não aprendeu nada com a Segunda Guerra Mundial. Vivemos em guerra constante e não fazemos nada para melhorar o mundo.

O mal existe e está dentro de cada um de nós. Que a verdadeira guerra seja para superar nossos egoísmos e que sejamos capazes de multiplicar o amor, pois só o amor poderá salvar a humanidade.

O livro é maravilhoso, pois Heather trabalhou muito bem e entregou um livro espetacular.