No livro As Horas, de Michael Cunningham, acompanhamos o processo criativo de Virgínia Woolf compondo o que viria a ser sua obra-prima, Mrs. Dalloway. De início, Virgínia estava decidida que Mrs. Dalloway precisava morrer. Depois, ao pensar novamente, decidiu que ela não morreria, mas algum personagem precisava morrer em seu lugar. Questionada pelo marido, Leonard, sobre esta necessidade, ela disse que algum personagem precisava morrer para que os demais soubessem valorizar a vida.

Ao ler A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery, conhecemos a história dos moradores de um edifício de luxo em Paris, mais precisamente na Rua de Grenelle. Conhecemos e acompanhamos a vida dos que vivem ali através do olhar de duas narradoras: Renée, a concierge do prédio, uma senhora mal-humorada, reservada e pessimista em sua visão de mundo; Paloma, uma garotinha na sua pré-adolescência, muito inteligente, também pessimista e que planeja incendiar o prédio para se suicidar.

Tal qual Mrs. Dalloway, o arco dramático do livro vai sofrendo alterações, e Paloma percebe que não deseja mais morrer. E como se a voz de Virgínia ecoasse, alguém vai precisar fazer este papel para que os demais valorizem a vida.

Em Sin City, de Frank Miller, o personagem de Bruce Willys dá a vida por uma garotinha. Suas últimas palavras são “Uma garotinha vive, um velho homem morre”. Simples assim. Tudo com causa e consequência.

Para citar apenas mais uma obra que possui um paralelo interessante com este livro, podemos citar A Hora de Estrela. O final trágico de Macabéia em detrimento do seu glorioso futuro aparece muito bem desenhado em A Elegância do Ouriço. E se cito tantas referências à outras obras, é exatamente para destacar outra característica do livro, que faz isso o tempo todo. Recomendo a leitura com o google e o youtube abertos, para ouvir as músicas e ver as maravilhosas cenas de obras de arte citadas ao longo do livro.

Além deste trabalho artístico, o livro também faz amizade com a filosofia, expondo algumas reflexões de suas personagens sobre a vida e sobre o mundo que as cerca.

Apesar de ter um começo difícil – eu mesmo pensei em abandonar o livro algumas vezes – A Elegância do Ouriço é uma leitura muito rica. Vale a pena insistir, pois boas surpresas virão. É uma obra literária com qualidade bem acima da média.