Se eu morrer antes de você é o livro número um da série “Love me to Death” publicado pela Editora Universo dos Livros. A série conta ainda com o livro Beije-me antes de morrer. Embora pertença à mesma série, são histórias diferentes com personagem diversos.

O tema central da história é o crime de estupro, inclusive Lucy que é a protagonista, foi vítima de um golpe, conhecido como “boa noite cinderela”, seguido de sequestro e estupro. Para quem nunca ouviu falar do “boa noite cinderela”, é um artifício criminoso que ocorre quando alguém droga uma vítima com o intuito de roubar ou estuprar. São utilizadas drogas que geralmente são colocadas em bebidas alcóolicas sem que a vítima tenha ciência do iminente perigo. Há casos também de drogas que podem ser absorvidas pela pele.

Na nossa história, o golpe do “boa noite cinderela” é intrinsecamente ligado aos crimes cibernéticos, pois os criminosos buscam suas vítimas em salas de bate papo, marcam encontros e depois drogam as vítimas para cometer estupros.

O caso de Lucy Kincaid foi muito grave, ela conheceu um cara na internet quando tinha 18 anos e acabou marcando um encontro em um parque para que eles pudessem se conhecer. Lá ela foi surpreendida com um cara que a drogou com um lenço que continha drogas e ela simplesmente apagou na hora. Depois ela foi sequestrada, estuprada e seus sucessivos estupros eram transmitidos online. O pior de tudo é que muitas pessoas pagavam vultosas quantias para assistir ao seu estupro. Soa completamente doentio pagar para assistir um estupro.

“Queria morrer, ali, naquele instante, porque alguns destinos eram piores que a morte”.

Em decorrência dos vários crimes praticados, a história é uma teia de aranha com muitas investigações. Em certo ponto da história, parece que todos são investigados e todos investigam alguém. Bem, isso ocorre por causa dos agentes envolvidos na trama. Temos a família Kincaid – Kate que é agente do FBI casada com Dillon que é psiquiatra forense, Lucy que está em seleção para ser agente do FBI que tem um envolvimento amoroso com Sean, sócio de seu irmão Patrick, eles são investigadores particulares. Sean é especialista em invadir sistemas, mas apenas quando é pago por isso. O trabalho de Sean anda na linha tênue entre a legalidade e a ilegalidade.

Lucy é uma sobrevivente que tenta fugir do estigma de vítima. Ela estudou psicologia e ciências da informática e almeja ingressar na carreira do FBI ajudando a desvendar crimes cibernéticos, precipuamente o crime de estupro para impedir que haja outras vítimas.

“Só porque uma mulher foi estuprada não significa que tenha de carregar esse estigma pra sempre, que isso tenha de limitar as suas opções”.

Lucy segue bem a vida depois do trauma sofrido, ela faz estágio em um centro que é responsável por monitorar estupradores após receberem o benefício do sursis e saem da prisão em condicional. Segundo os estudos, esses estupradores tendem a voltar a cometer o mesmo crime. O papel de Lucy é rastrear esses caras em salas de bate papo e marcar falsos encontros para levá-los de volta para a prisão.

Após seis anos do ocorrido, Lucy vê sua vida virar de ponta à cabeça, após a morte do segundo cara que a estuprou (Morton), pois o primeiro cara foi morto por Lucy. A morte de Morton vai trazer tantas perguntas que é quase impossível desvendar esse mistério e tudo o que envolve esse assassinato. A priori, todos podem ser suspeitos de ter cometido esse crime, inclusive a própria Lucy.

A história ainda conta com capítulos de um misterioso voyeur que persegue Lucy. O fato de ter um voyeur na história torna tudo mais intenso e intrigante.  Um voyeur é um perseguidor e esse foi um grande trunfo na história.

 “Ninguém entende a noção de tempo como eu. Durmo exatas seis horas todas as noites. Nem mais, nem menos. Faço exercícios por vinte e dois minutos todas as manhãs, seguidos por quatro minutos no chuveiro”.

O livro também é um prato cheio para operadores de Direito e de informática, os crimes cibernéticos são muito complexos e o tema também é muito importante. O livro traz uma crítica muito pesada ao sistema penal, em determinado momento a autora atribui a culpa da precariedade do sistema penal aos advogados e políticos. É público e notório, todos os problemas do sistema penal, tanto nos EUA como no Brasil, entretanto ressalvo o papel dos advogados que são os responsáveis pela justiça no processo. Além do mais, os problemas do sistema prisional são decorrentes de vários fatores: carência de políticas públicas, legislação branda, corrupção nos três poderes, sistema carcerário que é uma verdadeira escola do crime e muito mais. No contexto brasileiro, comparar advogados com políticos pode ser muito ofensivo. (risos)

Allison merece apenas uma crítica, ela não foi parcial em suas reflexões sobre o sistema penal. Claramente, exclui os policiais como responsáveis pelos problemas, tornando-os quase heróis. Todos sabemos que muitos policiais não são exemplares em seu papel, portanto não os tiraria do pacote que é responsável pelas mazelas enfrentadas pelo sistema penal e prisional.

Seguindo, gostaria de fazer um alerta. Não temam a espessura do livro. É um volume bem grande, são 479 páginas, entretanto a leitura é muito mais rápida do que alguns livros de 200 páginas. Em um piscar de olhos você lê 100 páginas, porque Allison escreve de forma leve um assunto que é tão pesado e prende completamente a atenção do leitor. No final do livro, a história torna-se pura ação e não tem como largar a leitura.

A melhor palavra para descrever o livro é intrigante, são muitas histórias paralelas e intrinsecamente interligadas que tornam o livro um grande mistério. Allison fez um trabalho brilhante, porque além de ter construído uma ótima história, ela ainda nos entrega essa história de uma forma impecável.

O barato do livro é que o leitor pode ser mais um dos investigadores, querendo desvendar o mistério em cada página virada. Essa investigação agradaria nossa Rainha do Crime, Agatha Christie.