Alceu Valença já cantava:

“A solidão é fera, a solidão devora.

É amiga das horas prima irmã do tempo,

E faz nossos relógios caminharem lentos,

Causando um descompasso no meu coração.”

Lançado em 2012 pela Editora Record, Solidão Continental de João Gilberto Noll nos apresenta um protagonista, cujo nome não nos é revelado e que nada em um mar de solidões – ele mesmo, um ser solitário:

“Eu era um homem dado à perene solidão. Mas disso eu não queria me queixar, não. Apenas tinha pudor de retratar esse estado a conhecidos e desconhecidos. Tinha medo de que alguém se mobilizasse para acabar com o meu isolamento sabe-se lá com que convivas.”

Mas como todo ser humano, nosso protagonista é também um ser tomado por contradições:

“Mas o certo é que andava louco para enfim me cercar de duas, três pessoas, ou nem tanto assim, que se interessassem pelo que eu comera no almoço, por exemplo, e uma pelo menos que estivesse disposta a dormir comigo, nem digo que trocasse comigo seus fluidos, mas que indagasse como fora o meu sono, que confessasse que ouvira meu ronco só ao amanhecer, e que eu por meu turno confessasse quem sabe o quanto seu sono era macio, apenas um ressonar suave, uma ou outra palavra em escapada de algum sonho…”

O autor retrata muito bem esses nossos tempos de relações efêmeras, de dificuldades em conectar-se com outros. O mundo de amores líquidos que escorrem e se desmancham e cuja solidão parece ser uma constante, apresenta-nos personagens que mergulharam em uma existência solitária, outros se contentaram em entregar-se a “um resto de existência” acompanhada apenas para fugir do “estar só”. A escrita de João Gilberto Noll é poética, mas também é de uma crueza que pode causar asco – o suor e outros fluidos descritos nos remetem à uma  sujeira pertencente ao ser humano que muitas vezes é esquecida na literatura.

Outros aspectos que parecem caminhar junto de nosso protagonista solitário – de maneira recolhida, até que conseguem uma brecha para escapar – são o desejo e a frustração. O desejo irrompe no protagonista e o leva a cometer desatinos, o faz seguir com voracidade até conseguir saciá-lo; a frustração surge muitas vezes como uma tapa na cara que o lança em outras racionalizações delirantes.

“Eu precisava renunciar à hipótese de que ele já se situava sob eu domínio. Se sumisse talvez fosse melhor. Que eu voltasse à minha solidão sem me abater. Nela tinha as minhas referências todas ordenadas, eu as abastecia com algumas obsessões, como o pensamento sobre o que eu perderia se viesse a morrer nas próximas horas.”

E seguimos esse personagem vivido, sofrido, que parece ter como única certeza a solidão, dada as frustrações diante desse mundo de amores líquidos e incertezas. Um livro triste, forte, belo e que faz pensar nas nossas próprias solidões, recomendo.

“Eu vivia entre fantasmas, pensei, e destas companhias etéreas eu não queria me apartar. Os seres físicos não me ofereciam nada mais convincente do que essas presenças esquivas ao meu toque, geralmente caladas…”