Lembro que há um tempo fiz uma resenha falando que me surpreendi (muito) com um livro. A dita cuja era sobre Faca de água, do autor Paolo Bacigulapi, publicado pela editora Intrínseca (leia aqui). E nesta mesma vibe, quando recebi a lista da editora há uns dias, bati os olhos em um título que me intrigou: A verdade é teimosa.

Eu pensei: “Ah, esse livro deve ser muito ‘massa’. Deve ser uns lances sinistros de suspense, etc, bem no estilo do Sheldon. No máximo, se for sobre política, deve ter várias referências, dados importantes e outras coisas pra entender o que a gente vive hoje. Quero ler”. E, realmente, o livro era sobre política (para minha primeira decepção).

Só que o que ele não tem é objetividade.

Para entender mais sobre ele, basta ler a sinopse que o acompanha:

Não há governo que pare de pé quando o governante provoca uma grave crise econômica. Nos últimos dois anos, o Brasil passou por uma recessão severa, com um rombo inédito nas contas públicas. Depois de mais de vinte anos, a inflação voltou a visitar o patamar de dois dígitos. Em agosto de 2016, quando o Congresso afastou definitivamente a presidente Dilma Rousseff, o desemprego abatia mais de 12 milhões de brasileiros. Para a jornalista Míriam Leitão, a crise estava anunciada havia muito tempo, pois o governo fechou os ouvidos a todos os alertas e a todas as críticas, enquanto fazia escolhas desastrosas.
O colunismo diário obriga o jornalista ao esforço de tentar ver além dos acontecimentos imediatos. Em A verdade é teimosa, encontram-se 118 textos produzidos desde 2010, quando falar em crise econômica parecia um verdadeiro atrevimento, até novembro de 2016, quando o governo Temer atravessava momentos de grande instabilidade política. Em linguagem clara, Míriam examina os antecedentes que levaram à recessão, à desordem fiscal e à inflação, bem como aos momentos mais agudos da crise em si. O passar do tempo demonstra que não adianta brigar com os fatos, porque a verdade é teimosa e aparece mesmo depois de ser encoberta por malabarismos estatísticos ou retóricos. O texto de Míriam joga luz sobre o passado recente do país, sem perder a esperança no futuro.

Eu preciso dizer que o livro é totalmente partidário?

Até então, não conhecia a Mírian Leitão (#mejulguem). Mas bastou completar a leitura com a apresentação do livro para ter ideia do que estaria por vir.

Tá, eu concordo, como já disse lá em cima, que ver o outro lado da história é sempre bom, principalmente para entender o cenário político atual em que estamos vivendo. O que eu não concordo é em escrever um livro que fala de política, mas que pinta o outro como sendo o pior dos governantes, sem levar em consideração as ‘boas obras’ que ele fez.

Interessante é que eu li o livro na mesma época em que cursava uma disciplina na faculdade que denunciava justamente isso dos jornalistas: a parcialidade. Nessa área, não existe essa de não tomar partido. A própria decisão de escrever sobre algo condena: você escolhe sobre o que falar, o que noticiar e mostrar ao público. E Mírian Leitão fez muito bem. Só não rolou o lance da imparcialidade.

Vejo, porém, alguns méritos no trabalho. Os dados que a autora traz são de grande relevância. Se você é acostumado a ler (apenas) notícias de Facebook, vai se surpreender com a quantidade de informações sobre economia que o livro traz. Muitas delas são bem importantes para se ter ideia do cenário atual em que estamos imersos. Outras tantas, tenho minhas dúvidas. Além disso, ela apresenta possíveis estratégias de como resolver o problema da crise com certa tom de esperança. Um ponto para a obra.

Apesar de tudo que me incomodou, o apanhado geral é aceitável para quem gosta de política. Eu, como não sou desses, me abstenho. Prefiro, ao contrário das palavras de Dumbledore, viver no mundo de sonhos. A política não é, de verdade, a minha praia.