Para permitir que mães com bebês de colo também possam frequentar o cinema e assistir a filmes voltados a elas – e não apenas para as crianças -, o projeto ‘Cine Materna’ tem agradado mulheres com filhos de até 18 meses, em Ribeirão Preto (SP). As sessões exclusivas para esse público acontecem em salas especiais, que recebem ajustes de som, de luz e climatização, para criar um ambiente mais acolhedor para os bebês.

O projeto começou em 2008, em São Paulo, quando um grupo de mães solicitou sessões especiais nos cinemas para elas e os filhos. Dessa forma, nenhuma delas precisaria abandonar as salas de exibição, ao mesmo tempo em que outras pessoas não se sentiriam incomodadas com a presença dos bebês. “Nosso principal objetivo é atender as mães e fazê-las entender que a vida fica mais complicada na maternidade, mas elas não devem se privar de nada que gostam”, explica a cofundadora da ONG CineMaterna, Tais Viana. Atualmente, as sessões especiais acontecem em 34 cidades de 14 estados.

Sessão animada
Logo na entrada do cinema, é possível ver a animação que toma conta das mães. “Eu acho que é bem legal poder vir aqui, porque a gente não pode ir aos cinemas comuns, já que as crianças podem chorar. Aqui pelo menos ninguém se incomoda, é uma coisa comum. A gente se sente mais a vontade”, conta a bióloga Juliana Martinez, mãe da Lorena, de um ano e cinco meses.

Ela conta que gostou tanto da ideia que, desde que descobriu as sessões, não perdeu nenhum filme em Ribeirão. “Fazem umas cinco, seis sessões que a gente vem. Desde o começo. Tem sido ótimo. Eu quero levar a Lorena em um cinema infantil mesmo, mas antes é preciso que ela se acostume. Isso tem sido bom”.

Na sala, o ambiente é elaborado pensando no conforto dos pequenos e dos grandes: o som do filme é mais baixo que das sessões normais, o ar condicionado é regulado para um clima ameno e algumas luzes ficam acesas para que as mães possam circular sem nenhum risco. Assim, as crianças ficam menos incomodadas e conseguem ficar tranquilas durante toda a exibição.

Para a psicóloga Michele Gonçalves, o projeto é uma chance de começar a oferecer experiências ao filho Davi, de cinco meses. “Eu procuro evitar um pouco essas estimulações muito precoces. Mas aqui, como o contexto é diferente, é muito interessante. É uma ótima oportunidade de eles irem se familiarizando com o ambiente de cinema, para depois a gente até levá-los em filmes infantis mesmo”, afirmou.

Brincadeiras
Embaixo do telão também ficam disponíveis um tapete de brincadeiras, caso a criança fique inquieta, e um trocador de fralda e roupa, que permite que a mãe não perca trechos do filme para cuidar do filho.

A experiência surpreende as mães, que conseguem se divertir junto com as crianças. “Eu venho com a Marta desde que ela tem dois meses. Essa é a quarta vez. E ela sempre se comporta muito bem e agora até assiste. Antes ela só dormia, mas agora ela também gosta de ver”, lembra a dona de casa Juliana Rodrigues.

Ela e as outras mulheres também usam o espaço para trocar experiências e fazer novas amizades, em um bate-papo que acontece logo após o filme. “A gente faz muita amizade aqui e também combinamos de vir em grupo, com amizades antigas. A gente se reúne já em outros locais e essa se torna mais uma opção. Virou mais um ponto de encontro”, explica Michele.

‘Invasoras’ de cinema
O CineMaterna começou quando diversas mães de primeira viagem, que não queriam deixar de frequentar o cinema, se uniram para “invadir” sessões durante a tarde. “Era um grupo normal, a gente se conheceu durante a gravidez, e trocávamos experiências. A gente acabou descobrindo que gostávamos muito de cinema, então passamos a invadir as sessões. Fizemos isso por um bom tempo”, lembra a cofundadora.

Durante seis meses, até sua filha completar um ano, Tais insistiu em frequentar as sessões normais, mesmo sabendo das dificuldades. “A gente ia porque a gente sentia muita falta desse tipo de programa. A gente ia com a cara e a coragem, mas não era tão agradável. Tinha que cobrir os ouvidos do bebê por causa do som, a gente ficava todas em um canto só, caso algum bebê chorasse, a gente já saía correndo. E a parte mais complicada era trocar a fralda. A gente sempre perdia muito o filme”.

Ela conta ainda que, quando percebeu, a ideia tinha se espalhado e mais mães queriam saber como podiam participar das sessões. “Mas a gente não tinha nada. Até que uma amiga deu a ideia de formalizar a ‘invasão’. A gente topava ir num horário mais vazio, que não incomodasse ninguém. Mas a gente queria que a sala fica amigável para os bebês. De forma agradável para mães e os filhos”. Dessa forma, Tais e suas amigas passaram a procurar patrocinadores para o projeto, que logo teve a adesão dos cinemas em todo o país.

Em Ribeirão Preto (SP), o projeto acontece de forma intercalada, a cada 15 dias, nos shoppings Iguatemi e Santa Úrsula. Os filmes exibidos fazem parte da programação do cinema e são escolhidos através de votação no site da ONG. “Mesmo que não agradem todas as mães, pelo menos a gente sabe que a maioria queria ver determinado filme. Aí a gente negocia com o cinema para ver o melhor horário para a sessão”, explica Tais.

O ingresso pode ser adquirido antecipadamente na bilheteria ou momentos antes da sessão. O valor é determinado pelo cinema e varia conforme o dia da exibição.

Davi, de apenas cinco meses, se diverte com a mãe Michele durante o filme (Foto: Amanda Pioli/G1)

Davi, de apenas cinco meses, se diverte com a mãe Michele durante o filme (Foto: Amanda Pioli/G1)

Fonte: G1