Olá pipoqueiros, turubom?

Preciso começar essa resenha falando que estou impactada real com esse livro. Essa obra foi lançada inicialmente no Clube Intrínsecos (quero, aliás) e depois disponibilizada comercialmente em todas as livrarias.

O livro “Daqui pra Baixo” é todo narrado em versos, trazendo uma nova perspectiva na minha leitura, visto que nunca tinha lido um livro inteiro, que conta apenas uma história, nesse formato.
A história do livro é a morte de Shawn e o dilema de Will, perante a perda do irmão mais velho. Will sofre a dor calado, seguindo as regras da sua comunidade: não chorar, não dedurar e se vingar. Embora a dor o corroa por dentro de tal forma que o sufoca, ele jamais quebraria as regras que seu irmão mesmo o ensinou.

Para começar a falar desse livro, um detalhe importante, ele acontece no geral em 24 horas e a parte principal leva apenas 67 segundos. Tudo acontece em 67 segundos do Will dentro de um elevador. Lembrando que não necessariamente o elevador é um elevador. Ao meu ver foi apenas uma alusão ao descer ou subir, ficar em silêncio, não conversar e seguir o fluxo. Um outro detalhe legal é a diagramação do livro. Impressionante a capa, as páginas, o cuidado com cada detalhe. Cada pular de linha a mais, página em branco, desenhos… tudo pensado exclusivamente no contexto forte e importante da narrativa.

Brilhantemente o autor nos trás a dor do Will de forma crua. A dor dele é tão dilacerante que nos cega e dá aquele frio na espinha. Eu passei o livro inteiro com aquele nó se formando, aquela bola de neve, aumentando, aumentando, aumentando, até que eu achei que ia surtar junto com ele.
O livro é tão denso que não sei como ele fez isso em poucas palavras. É lindo e triste, ao mesmo tempo.

Os 67 segundos que se passam na vida de Will, dele se questionando sobre a vingança, dele sendo questionado pelas pessoas que ele perdeu, sobre o ciclo da vingança que ele quer ou acha que precisa, sobre as certezas que ele acha que tem… Tudo é intenso.
Will é um personagem doce, fora do seu controle, instaurado numa comunidade violenta e tomada pela desigualdade. Nada diferente do que a gente vê por ai, não é? Mas Will é diferente, ele não nasceu praquilo. Não é do seu feitio. E isso fica claro em cada página também.

Jason é um mestre dos versos. Uns eu quis colocar num potinho. Outros que me fizeram chorar. Alguns me deram nó na garganta. O livro é sensacional e eu me arrependi de não ter lido antes.

Outra coisa interessante no livro é a fluidez dele. Eu o li em uma hora, sufocada pela curiosidade. Eu precisava saber qual seria a atitude do Will. No fim, eu fiquei com aquele cara de: QUE? mas depois eu entendi. Eu entendi que não era sobre a atitude que ele ia tomar naquele momento. O livro é sobre a atitude que tomamos para quebrar padrões. É sobre atitudes que sufocamos ou atitudes que achamos as mais certas sem parar realmente para pensar sobre elas.

De uma coisa eu sei, Will é uma parte de mim. Ele é uma parte da sociedade doente e cansada, uma parte da sociedade que apanha. Will é um pedaço de você, com certeza. Ele é a dúvida, o medo, a angústia. Will faz parte de todos nós.
Lindo esse livro. Apaixonante e necessário. Leiam, mas leiam de coração aberto e sem julgamentos, sem achar que o final deveria ser algo que não é. Em 67 segundos, foi muita ferida exposta e um livro incrível aberto pra nós.
Leiam.

“tem risada
que é tão alta
e apontada
pra você

que acho
que pode ser
tão ruim quando
o impacto

de uma bala.”

– tem livros tão altos quanto essa risada, também.

Até breve.

Share:

author

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *