Salve salve, pipoqueiros!

O selo da Editora Record, a Rosa dos tempos, lançou esse ano um dos livros que eu mais me interessei em ler: a história da Tituba, uma mulher negra que foi presa suspeita de bruxaria durante o período de julgamentos das Bruxas de Salem, no século XVII. Logo no prefácio sabemos a intenção da autora, reconhecer a voz de uma mulher subestimada para aquela época e criar uma origem para essa personagem tão importante historicamente.

O que sabemos dela?

Tituba Indian foi uma escrava que pertencia ao reverendo Samuel Parris em Salem. Ela e outras duas mulheres foram acusadas de praticar bruxaria, em específico, Tituba foi acusada de enfeitiçar as crianças da família de Samuel Parris. Ela a princípio negou os crimes que lhe foram atribuídos, mas logo foi coagida a confessar que teve contato com o próprio Diabo. Após meses trancada na prisão, ela é absorvida e depois vendida a outro Senhor. Tituba desapareceu dos registros históricos e não ficamos sabendo o que aconteceu.

O que a autora criou?

Condé manteve esse documento histórico intacto, mas deu a Tituba uma origem com a mãe, seu nascimento, sua mentora e o desafio de ter sido escrava e de ver com seus próprios olhos o mundo sendo cruel e racista.

O livro

Tituba é fruto de um estupro. Sua mãe, Abena, foi violentada por um marinheiro inglês antes de atracar no porto de Bridgetown. Quando chegou no porto, ninguém suspeitava da condição de Abena e logo foi vendida. Começou a trabalhar para um rico fazendeiro chamado Darnell Davis. O tempo passou e o Darnell notou que Abena estava grávida, ficou furioso e a entregou para seu outro escravo, Yao, que sofria de uma depressão severa. Com o passar do tempo, os dois se apaixonaram e Yao assumiu ser o pai que a Tituba tanto merecia. Aos sete anos, Tituba viu sua mãe sendo enforcada por um ato de coragem: Se defender do maligno Darnell que a via com mais intenções e tentou violenta-la. Yao não superou a morte da amada e se matou. Tituba foi negada por diversas famílias, ninguém a queria, até que uma velha a acolheu. Man Yaya se tornou uma segunda mãe para a nossa protagonista. Ela era uma senhora que vivia isolada e convivia com uma sombra do sobrenatural a guiando. Ela ensinou tudo sobre plantas para Tituba – as que davam sono, as que curavam feridas, as que arrancavam verdades das pessoas, as que acalmavam, enfim, basicamente tudo. Anos mais tarde, após a morte da sua segunda mãe, Man Yaya, Tituba se apaixona por John Indian, que servia a uma senhora muito poderosa da região e não tardou para que os dois morassem juntos e servissem para essa mulher.

Tituba mantinha seu contato com os espíritos de sua mãe e de sua mentora e ambas a aconselharam a não seguir John Indian porque ele só a levaria a desgraça. Ela obedeceu? Não. E é a partir dai que vai se desenrolar o enredo dessa história até chegar ao julgamento de Salem. A autora também cria um desfecho para Tituba, já que não há registros históricos com pistas do paradeiro dela.

O que eu achei?

Eu esperava mais do livro para falar a verdade. Não da história em si, mas da personagem. Tituba é descrita como uma mulher bondosa e ingênua, mas eu acrescento que ela também é teimosa. Sua família sempre a alerta sobre os perigos e as más intenções dos homens e das pessoas brancas. Parece que ela não quer escutar as vozes da razão. Desde o começo sua mentora avisava dos perigos que um homem pode arquitetar e que, independente da cor da pele, o homem vai ser ouvido, do contrário das mulheres.

Eu sei que os tempos eram outro, a história se passa em 16**, e as condições da época não era nada favoráveis a uma mulher negra que vivia do jeito que a Tituba vivia e respeitava, mas a bondade que ela carregava acabava cegando a realidade histórica. Aprecio muito a ingenuidade e o carinho que ela sentia por pessoas que menosprezavam ela, mas é cada tapa na cara que ela leva que nós acabamos nos acostumando a um final previsível.

Eu amei a ambientação, as curiosidades históricas e os cenários super bem descritos. A autora arrebenta nesses quesitos. Há uma conversa super interessante lá pra depois da metade do livro, onde tituba ouve desabafos de um senhor judeu – que a comprou – sobre seu legado como homem judeu. Ele tenta criar seus filhos e filhas e acaba comentando que a comunidade judaica, por muito tempo, continua sendo perseguida e sofrendo por isso. E nesse momento ele esquece totalmente de que está conversando com uma mulher negra que está sendo escravizada por ele e que muitos antepassados dela também morreram e estão sofrendo. Até mesmo nisso a gente acompanha a desigualdade, dois legados que sofreram e ainda sofrem, mas não se misturam. Curioso, né?

O final foi um pouco previsível, mas o epílogo é de partir o coração. Tituba foi uma mulher muito forte, corajosa e muito teimosa. Eu realmente imagino que ela possa ter sido ingênua a ponto de confiar em pessoas erradas. Mas como eu disse lá em cima, não se tem muitos registros sobre ela. A autora fez ligações e criou uma origem para ela MUITO coerente e genial.

Vale a pena a leitura!

Até a próxima!

Share:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *